Please use this identifier to cite or link to this item: http://hdl.handle.net/10316/95299
Title: A (Re)Descoberta do Corpo: Uma abordagem neomaterialista das vivências de mulheres com malformação congênita do aparelho reprodutor
Authors: Santos, Caynnã de Camargo
Orientador: Ferreira, Virgínia do Carmo
Keywords: Corpo; Body; Neomaterialismo; Realismo Agencial; Síndrome de Mayer-Rokitansky-Küster-Hauser; Teoria Feminista; New Materialism; Agential Realism; Mayer-Rokitansky-Küster-Hauser Syndrome; Feminist Theory
Issue Date: 4-Jun-2021
Abstract: As vitórias alcançadas nas últimas décadas pelas teorias feministas pós-estruturalistas no combate ao naturalismo e ao essencialismo biológico cobraram um alto preço; mais especificamente, essas batalhas parecem ter sido ganhas à custa da renúncia à materialidade corporal. De fato, ao situarem nos textos, nos sentidos, nas epistemes e nos processos de significação cultural seus objetos praticamente exclusivos de interesse e de escrutínio, tais posicionamentos construtivistas popularizaram determinado entendimento sobre o corpo que o assemelha a uma mera “posição discursiva”. A presente tese é animada pela compreensão de que as teorias feministas, na atualidade, veem-se confrontadas com a urgente tarefa de novamente “levar a matéria a sério” (Alaimo, 2010: 6). O estudo aborda a questão de como reinserir a problemática da materialidade nos atuais debates feministas sobre corpo de maneira a não sucumbir à concepção moderna de matéria enquanto pura facticidade biológica, inerte e autossuficiente (posição que, tradicionalmente, fundamentou naturalismos e essencialismos antifeministas) e, simultaneamente, não capitular aos impulsos linguísticos totalizantes que marcam grande parte dos construtivismos hoje dominantes na área. No âmago da tese, reside uma tentativa de demonstrar, a nível tanto teórico quanto empírico, que a modalidade de neomaterialismo proposta pela física e feminista norte-americana Karen Barad, nomeada de “realismo agencial”, oferece à sociologia e aos estudos feministas promissoras ferramentas político-teóricas (e nos convida a pensar muitas outras) capazes de superar as contendas circulares entre construtivismos totalizantes e naturalismos reducionistas que atualmente marcam e limitam grande parte dos debates acerca dos corpos e das subjetividades. De modo a ilustrar as potencialidades do edifício político-teórico desenvolvido por Barad para abordagens feministas do corpo situadas no domínio das ciências sociais, algumas das principais propostas do realismo agencial são operacionalizadas na análise de um fenômeno específico: as vivências de mulheres com uma forma rara de malformação do aparelho reprodutor, que se manifesta na ausência congênita do útero (ou presença do órgão em forma rudimentar) e agenesia vaginal (presença de 1/3 do canal vaginal), conhecida na literatura médica como Síndrome de Mayer-Rokitansky-Küster-Hauser (MRKH). A partir daquilo que nomeamos de perspectiva metodológica qualitativa de viés (auto)crítico, o estudo promove leituras difrativas dos relatos das entrevistadas quando tratando das capacidades reprodutivas de seus corpos e do encurtamento congênito do canal vaginal associado à Síndrome. Das leituras conduzidas, emerge uma compreensão alternativa de corpo que o identifica como uma entidade ontologicamente relacional, uma materialidade dinâmica e detentora de limites mutáveis, cuja aparência de estabilidade, unidade e autossuficiência é tecida contextualmente por/em redes nunca estáticas de agências heterogêneas, incluindo forças de ordem política, econômica, cultural, tecnológica, entre outras. No decorrer das análises, somos também convidados a repensar, mediante uma visada atenta à materialidade de actantes humanos e não-humanos, noções de importância fulcral para os estudos feministas contemporâneos, tais como performatividade, agência, processos de materialização e práticas discursivas. A presente tese contribui no sentido de suprir duas carências distintas. Primeiramente, no campo das pesquisas sobre a MRKH, que tem sido historicamente dominado por abordagens das ciências médicas, o estudo representa uma rara aproximação sociológica e informada pelas perspectivas feministas. Em paralelo, reconhecemos a carência, em espaços lusófonos, de estudos que, partindo das teorias feministas, se dediquem especificamente à operacionalização do realismo agencial de Karen Barad em análises empíricas.
The victories achieved in recent decades by post-structuralist feminist theories in their struggles against naturalism and biological essentialism have taken a heavy toll; more specifically, such battles seem to have been won at the expense of renouncing the materiality of the body. In fact, by placing their exclusive objects of interest and scrutiny in texts, meanings, epistemes, and processes of cultural signification, these constructivist positions popularized a certain understanding of the body that regards it as a mere "discursive position". The present thesis is animated by the understanding that feminist theories, today, are faced with the urgent task of “taking matter seriously” (Alaimo, 2010: 6). The study addresses the question of how to reintroduce the issue of materiality in the current feminist debates about the body in such a way as not to succumb to the modern conception of matter as an inert and self-sufficient biological facticity (a position that, traditionally, has based anti-feminist naturalisms and essentialisms) and, simultaneously, as not to capitulate to the totalizing linguistic impulses that characterize a large part of the constructivisms that are currently dominant in the area. At the heart of the thesis lies an effort to demonstrate, at both a theoretical and empirical level, that the modality of new materialism proposed by American physicist and feminist Karen Barad, called “agential realism”, offers promising political and theoretical tools for sociology and feminist studies (and invites us to think of many others) capable of overcoming the circular strife between totalizing constructivisms and reductionist naturalisms that currently mark and limit much of the debates about bodies and subjectivities. To illustrate the potentialities of the political and theoretical framework developed by Barad for feminist approaches to the body in the domain of social sciences, some of the main propositions of agential realism are operationalized in the analysis of a specific phenomenon: the experiences of women with a rare form of malformation of the reproductive system, which manifests itself through congenital absence of the uterus (or presence of the organ in rudimentary form) and vaginal agenesis (presence of 1/3 of the vaginal canal), known in the medical literature as Mayer-Rokitansky-Küster-Hauser syndrome (MRKH). Based on what we name as a qualitative methodological perspective of (auto)critical bias, the study promotes diffractive readings of the interviewees' accounts when dealing with the reproductive capabilities of their bodies and the congenital shortening of the vaginal canal associated with the Syndrome. From the readings conducted, an alternative understanding of the body emerges, one that identifies it as an ontologically relational entity, a dynamic materiality with mutable limits, whose appearance of stability, unity, and self-sufficiency is contextually enacted through never static networks of heterogeneous agencies, including political, economic, cultural, and technological forces, among others. In the course of the analysis, we are also invited to rethink, without losing sight of the materiality of human and non-human actants, notions of central importance for contemporary feminist studies, such as performativity, agency, materialization processes and discursive practices. This thesis contributes towards filling two distinct needs. Firstly, in the field of studies on MRKH, which has historically been dominated by approaches from the medical sciences, the study represents a rare sociological effort informed by feminist perspectives. In parallel, we recognize the lack, in Portuguese-speaking spaces, of studies that, based on feminist theories, are specifically dedicated to the operationalization of Karen Barad's agential realism in empirical analysis.
Description: Tese no âmbito do Doutoramento em Sociologia, apresentada à Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra.
URI: http://hdl.handle.net/10316/95299
Rights: openAccess
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UC - Teses de Doutoramento

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