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Title: As mil caras de uma doença - sífilis na sociedade Coimbrã no início do século XX
Authors: Lopes, Célia 
Orientador: Santos, Ana Luísa
Keywords: Paleopatologia; Indivíduos identificados; História da medicina; Arquivos; Cemitério Municipal da Conchada; Hospitais da Universidade de Coimbra
Issue Date: 15-Dec-2014
Citation: LOPES, Célia Cristina Rodrigues - As mil caras de uma doença : sífilis na sociedade coimbrã no início do século XX. Coimbra : [s.n.], 2014. Tese de doutoramento. Disponível na Internet em: http://hdl.handle.net/10316/25835
Abstract: A sífilis é uma infeção sexualmente transmissível, crónica e com transmissão congénita, cujo passado clínico se encontra bem documentado. Desde o século XV a meados do século XX, constituiu um sério problema de saúde pública na Europa. Em Portugal, são inúmeras as obras que se dedicam a este tema, particularmente depois da identificação do seu agente etiológico, o Treponema pallidum pallidum, e da descoberta de antibióticos eficazes no seu tratamento; apesar disto, a pesquisa paleopatológica no país revela apenas 9 casos possíveis/prováveis de sífilis, facto que é acompanhado pela inexistência de números oficiais no que respeita à doença no passado. Os objetivos principais do trabalho que agora se apresenta visam exatamente tentar entender e colmatar algumas destas falhas. Desta forma, o primeiro objetivo do trabalho foi o de contribuir para o conhecimento da sífilis na cidade de Coimbra, ao longo das primeiras décadas do século XX. Este objetivo foi concretizado através da consulta de material de arquivo dos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC) e do Cemitério Municipal da Conchada (CMC). O período temporal escolhido centrou-se entre 1904 e 1937, anos de falecimento dos indivíduos das coleções osteológicas “Esqueletos Identificados” (CEI) e “Trocas Internacionais” (CTI), utilizadas na pesquisa paleopatológica. Em segundo lugar pretendeu-se aferir a importância da consulta de arquivos para os estudos paleopatológi¬cos. Finalmente, procurou-se estabelecer uma relação entre a localização das lesões da sífilis no vivo e as observadas no esqueleto, cruzando dados obtidos nos arquivos com os observados nos esqueletos pertencentes à CEI e à CTI. De entre os internamentos efetuados nos HUC entre 1904 e 1937, 5,9% (6705/114307) tinham como patologia diagnosticada a sífilis. A maioria dos doentes entrou com diagnóstico de sífilis adquirida (89,3% [1619/1813]), tendo os restantes 10,7% (194/1813) ocorrido na sua forma congénita. A sífilis adquirida afetou sobretudo jovens adultos (20-39 anos), solteiros, sem distinção estatisticamente significativa entre sexos. A sífilis congénita foi detetada sobretudo em crianças, entre os 0 e os 4 anos de idade. A maioria dos internamentos por sífilis congénita ocorreu quando a doença se apresentava já na sua forma terciária (53,9% [21/39]), o mesmo não sucedendo na forma adquirida da doença, com 29,5% (1063/3598) dos casos. A sífilis óssea foi responsável por 16,2% (57/352) dos internamentos femininos e 8,1% (60/738) dos masculinos, manifestando-se sobretudo por reações ósseas inespecíficas, como osteítes e reações periósteas, ocorrendo a formação de gomas ósseas em 1,8% das mulheres e 1,3% dos homens. A maioria das manifestações ósseas da doença ocorreu no crânio em 64% das mulheres e 61,8% dos homens, particularmente no palato e nos parietais. Os membros inferiores foram afetados em 48% dos indivíduos do sexo feminino e em 60% dos masculinos. A sífilis enquanto causa de morte revelou-se pouco frequente, englobando 0,9% (181/20680) dos enterramentos efetuados no CMC no período em estudo. A maioria destes indivíduos era do sexo masculino (57,5%), com uma idade média à morte de 45,4 anos; as mulheres, correspondentes a 38,1% das mortes por sífilis, faleceram, em média, aos 40,7 anos. Perto de metade (46,4%) das inumações pertenceu a crianças com menos de 10 anos de idade à morte. Todas as mortes por sífilis se ficaram a dever à forma terciária da doença, com 83,1% (49/59) dos casos de sífilis maligna (neurossífilis e cardiovascular). Nas coleções osteológicas 0,8% (13/1647) dos indivíduos possuem sífilis registada como causa de morte; após análise dos arquivos dos HUC, o número subiu para 56 (3,4%), 39 do sexo masculino (idade média à morte de 43,7 anos) e 17 do feminino (idade média de 40,6 anos); destes, 29% (n=16) foram diagnosticados com sífilis secundária, 25% (n=14) terciária e 7% (n=4) primária. Seguindo os critérios de diagnóstico propostos na bibliografia paleopatológica nenhum dos indivíduos poderia ter sido identificado como doente de sífilis. Apenas em 15 (27,3%) foram referenciadas lesões, não específicas, com possível relação com a doença; destes, 16,4% (n=9) possuíam o crânio afetado, sem qualquer caso de caries sicca; relativamente ao esqueleto pós-craniano foram identificadas lesões nos ossos dos membros inferiores, em 50% (n=1) das mulheres e 46,7% (n=7) dos homens, em algumas costelas e num esterno. A inexistência de gomas ósseas não permite concluir que estas lesões tenham origem na sífilis, ainda que essa seja uma causa possível. Estes resultados vêm confirmar, e reforçar, a problemática do diagnóstico paleopatológico, em particular quando o esqueleto está incompleto, sendo essencial a continuidade dos estudos, quer em populações coevas mas distanciadas espacialmente, quer em populações mais antigas, de forma a melhor compreender o passado da sífilis.
Syphilis is a sexually transmitted and chronic infection, also with congenital transmission, that has a well-documented clinical past. Along the 15th century and until the mid-20th century, syphilis was one of the major public health problems in Europe. In Portugal, as well as worldwide, there has been a proficuous amount of scientific production devoted to this topic, especially after the identification of its etiological agent, the Treponema pallidum pallidum, and the discovery of the antibiotics that were efficient on its treatment. Albeit this extensive scientific knowledge, the paleopathological research in Portugal revealed solely nine possible cases of syphilis, retrieved from the archaeological context. Moreover, there is a lack of data regarding the number of individuals deceased by syphilis on the past official statistics. Hence, the main purpose of the present work was to appraisal some of these omissions in order to extend our knowledge of this entity in the past. The first aim was contribute to the knowledge of syphilis in the city of Coimbra, along the first decades of the 20th century. This intent was achieved through the analysis of the medical archives of the Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC) and of the Cemitério Municipal da Conchada (CMC). The chronological boundaries for the archival study were settled between 1904 and 1937, which correspond to interval of years of death of the individuals composing the Coimbra osteological collections, namely the Colecção de Esqueletos Identificados (CEI) and the Colecção de Trocas Internacionais (CTI), both analyzed on the paleopathological research. Secondly, was ascertained the importance of the medical archives analysis to the paleopathological studies. Finally, was intended to analyze the relation between the location of the syphilis lesions in vivo and the ones recorded on the ancient human remains, by crossing-data from the medical files and the ones observed on the skeletons from the CEI and CTI. Among the patients admitted to the HUC between 1904 and 1937, 5.9% (6705/114307) had a positive diagnosis for syphilis. The majority of those were reported as having acquired syphilis (89.3%-1619/1813), while the remaining ones, 10.7% (194/1813), had the congenital form. Acquired syphilis affected predominately the young adults (20-39 years old), single and without a statistically significant difference between sexes. The congenital syphilis was preponderant in children, aged 0 to 4 years old. For this last entity, the majority of the internments occurred when the disease was in its tertiary stage (53.9% [21/39]). Contrastingly, this value was of 29.5% (1063/3598) for the acquired syphilis cases. Osseous syphilis was responsible for 16.2% (57/352) of the female hospital admissions, and 8.1% (60/738) for the male counterpart. The disease manifestations occurred mostly through unspecific bone reactions, such as osteitis or periosteal reactions, while the typical gumma occurred solely in 1.8% of the females and 1.3% of the males. The cranium was the most affected anatomical area (64.0% of the females and 61.8% of the males), with a preferential location on the palate and parietal bones. Lesions on the lower limbs were noticed in 48.0% of the females and 60.0% of the males. Regarding the survey of the registries of the CMC, syphilis was noted as an infrequent cause of death, reaching 0.9% (181/20680) of the total burials within the period under study. The majority of the deceased were males (57.5%), with a mean age at death of 45.4 years. A total of 38.1% of the females deceased by syphilis, with a mean age at death of 40.7 years. Nearly half (46.4%) of the inhumations were of children aged less than 10 years old. All the cases detected were in the tertiary form of the disease, with 83.1% (49/59) of malignant syphilis (neurosyphilis and cardiovascular). The study of the osteological collections revealed that 0.8% (13/1647) of the individuals had syphilis recorded as the cause of death, yet after the analysis of the HUC archives this value increased to 3.4% (56/1647), corresponding to 39 males (mean age at death of 43.7 years) and 17 females (mean age at death 40.6). Most of the diagnoses were of secondary syphilis (29% [n=16]), followed by its tertiary (25.0% [n=14]) and primary stages (7% [n=4]). By applying the diagnostic criteria described on the paleopathological literature, none of the individuals could have been identified as sufferers of syphilis. Only in 15 (27.3%) cases were detected bony lesions, yet with a non-specific character. Amongst these, a total of nine (16.4%) had cranial lesions, nonetheless without caries sicca. The lower limb was also affected (50.0% [n=1] of females and 46.7% [n=7] of males), as well as the ribs and sternum, albeit without the presence of gumma. Thus, the detected lesions could not allow a diagnosis of syphilis. The exposed results reinforce the problems and constraints of the paleopathological diagnosis of syphilis, particularly in incomplete skeletons. It is therefore essential to undergo further research on this topic, either in coeval samples from other geographical areas or in archaeological populations, in order to achieve a better understanding of the past and evolution of this disease.
Description: Tese de doutoramento em Antropologia, Ramo de especialização: Antropologia Biológica, apresentada ao Departamento de Ciências da Vida da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra
URI: http://hdl.handle.net/10316/25835
Rights: openAccess
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