Title: O germinar de um cipreste
Authors: Boliqueime, Susana 
Orientador: Providência, Paulo
Keywords: Lino, Rau, 1879-1974, obra
Issue Date: Jun-2013
Citation: Boliqueime, Susana Lourenço - O germinar de um cipreste : a formação alemã de Raul Lino e a sua inserção no nacionalismo português de 1900. Coimbra, 2013
Abstract: A obra de Raul Lino é conhecida pela temática da “Casa Portuguesa”, no entanto esta não é a única temática presente na sua obra. Arquitecto, aguarelista, decorador, cenógrafo, desenhador, figurinista e escritor, considerava-­‐‑se um homem livre, como um cipreste. Raul Lino nasce a 21 de Novembro de 1879, em Lisboa. Proveniente de uma família abastada, filho de José Lino da Silva, um rico negociante de materiais de construção e Maria Margarida de La Salette Lino. Teve o privilégio de ir estudar muito cedo para Inglaterra e Alemanha. É na Alemanha que tem a oportunidade de trabalhar com Albrecht Haupt, com quem mantém uma amizade duradoura, até 1932, ano da morte de Haupt. Quando volta a Portugal, em 1897, começa a exercer arquitectura num período controverso de viragem de século. O nome de Raul Lino ficou ligado a temáticas de defesa dos valores tradicionais da arquitectura portuguesa. Numa análise mais cuidada à sua obra é possível encontrar, principalmente nos seus primeiros trabalhos, elementos pertencentes a um pensamento moderno. Para lá das representações formais que por vezes à primeira vista nos remetem para a arquitectura popular portuguesa, existem preocupações como a defesa de uma arquitectura feitas à medida do Homem (o projecto era um produto do Homem para os Homens2) e com o local onde constrói, preocupando-­‐‑se com a história e o espírito do lugar. Estéticamente podemos considerar a obra de Lino como conservadora e ecléctica, mas as suas influências estilísticas e a sua formação metodológica é claramente moderna. O período de 1900 constitui um período de charneira da história da arquitectura portuguesa. Surge na sociedade Lisboeta uma nova burguesia, conhecida também por “novos ricos” graças às sua fortuna proveniente do Brasil e África. Estes novos elementos da sociedade priveligiavam a cultura e eram bastante informados sobre o que se estudava pela Europa. Dentro das primeiras obras de Raul Lino encontram-­‐‑se, maioritariamente, as casas de férias para esta elite, que com o saudosismo pelo mundo rural vão ocupar Sintra, Cascais e o Estoril. 3 Raul Lino, autor de numerosos textos teóricos sobre a problemática doméstica popular, a casa portuguesa e várias publicações para jornais e revistas, entre eles o Jornal de Notícias, morre a 13 de Julho de 1974, com 94 anos, deixando também uma obra com mais de 700 projectos. Esta dissertação procura compreender como é que a formação e diferentes experiências, como viagens e a precoce autonomia para viver e estudar sozinho vão dar a Raul Lino as “ferramentas” para idealizar e projectar as suas primeiras obras. Ao contrário de outros arquitectos da sua geração que se formavam em Portugal e, ou seguiam para a Escola de Belas Artes ou para França onde cursavam na École Nationale Supérieure des Beaux-­‐‑Arts de Paris, Raul Lino indo estudar com apenas 10 anos de idade para um colégio católico em Inglaterra, vai ter uma formação em vários aspectos diferente. Como refere Rui Ramos : “ Até aos anos de 1920, o jovem Raul Lino realiza uma obra singular pela sua concepção inovadora do espaço habitável e adequação do edifício ao sítio, programa e utilizador. A sua obra deste período, onde se distingue a arquitetura doméstica, não é elaborada por cânones beauxartianos, ligando-­‐‑se à procura no projeto de uma relação orgânica entre construção e vida.” 4 Existem vários livros e pesquisas sobre o Raul Lino, mas concretamente sobre o seu período de formação, principalmente desde o seu tempo vivido em Inglaterra ou na Alemanha e os primeiros anos de retorno a Portugal, persistem ainda grandes possibilidades de pesquisa. É esta diferente opção de formação que vai levar à sua produção artística tornando-­‐‑o numa das personagens mais influentes da arquitectura portuguesa do início do século XX. Um dos primeiros problemas que a minha pesquisa procurou resolver passou pela organização de uma cronologia detalhada sobre os anos que me propus estudar. Essa cronologia delimita o período de pesquisa entre os anos que passou no estrangeiro, por onde ficou e com quem contactou; a sua chegada a Portugal (1897); o seu contacto com contemporaneos como Roque Gameiro, Raul Gilman e Alexandre Rey Colaço; os primeiros trabalhos desde a casa para Roque Gameiro; a proposta para o pavilhão de Portugal e “as Casas Marroquinas”. Uma das metodologias que me propus adoptar no início da dissertação passava por consultar documentação inédita, através de diários, cartas ou cadernos de viagem que se encontrassem em espólio da família de Raul Lino. Frustadas todas as tentativas de contacto com a família de Lino urgia adoptar novas fontes. E é neste momento que venho a ter acesso ao neto do Aguarelista Roque Gameiro, o Arquitecto Pedro Martins Barata e aos espólios dos dois museus -­‐‑ o Museu Aguarela Roque Gameiro, em Minde e a Casa Museu Roque Gameiro na Amadora. Para além das visitas aos museus, edifícios projectados por Raul Lino, ainda tive acesso a cartas inéditas trocadas entre Lino e Gameiro. Não foi possível comprovar qual o colégio católico que frequêntou em Windsor, na Inglaterra bem como encontrar os registos da sua passagem pela Handwerker und Kunstgeweberschule, em Hannover. Mais facilmente tive o acesso ao registo das aulas em regime de curso livre que frequentou na Königliche Technische Hochschule de Hannover, comprovado nos registos de uma tese de douturamento sobre Haupt -­‐‑ “Karl Albrecht Haupt (1852-­‐‑1932) e o «desenho de viagem» : o registo dos monumentos nacionais : compreensão arquitectónica e fruição estética” da Dra. Lucília dos Santos Belchior. A análise de textos e publicações de Diário de Notícias do próprio Lino foi de grande ajuda, assim como o acesso ao espólio do museu Rafael Bordalo Pinheiro, uma vez que encontrei um original da revista "ʺParódia"ʺ com a crítica à proposta para o Pavilhão de Portugal. O acesso às publicações do espólio do museu da fábrica de Loiças de Sacavém mostrou-­‐‑ se por outro lado, essencial para descobrir quem foi Raul Gilman. Parece-­‐‑me desde logo pertinente levantar questões quanto a uma formação diferente de Raul Lino. Em vez do tradicional curso de arquitectura, opta por um curso técnico profissional de carpintaria na Handwerker und Kunstgeweberschule, em Hannover, ao mesmo tempo que realiza um estágio no atelier de Albrecht Haupt e assiste, no regime de cursos livres, a aulas teóricas do curso de Arquitectura da Königliche Technische Hochschule de Hannover. Lino encontra-­‐‑se fora do seu País de origem desde os 10 anos de Idade e quando regressa já tem 18 anos. Pode-­‐‑se então colocar a seguinte questão: como é que uma formação “estrangeirada” e de cariz autodidata se vai reflectir numa construção de uma cultura nacional, recriando um imaginário colectivo do "ʺreaportuguesamento da casa portuguesa"ʺ?5 A necessidade de afirmação do que é ser Português, e a valorização da cultura Portuguesa, talvez esteja relacionada com o saudosismo próprio do emigrante, uma vez afastado da sua pátria. Mas pode também ser sinal das correntes nacionalistas do final do século XIX alemãs. Assim, para Lino, a estadia no estrangeiro terá reforçado o seu interesse pela cultura Portuguesa. Considera-­‐‑se apropriado, encontrar e compreender a evolução da sua metodologia de projecto, como chegou à sua identidade e estilo arquitectónico, como articulava os seus conhecimentos e formações estrageiras, e como isso se reflecte nas suas primeiras obras ao chegar a Portugal. Desta forma, as viajens que faz, não só pelo seu País, como também por Marrocos, devem ser entendidas como procura de uma cultura Portuguesa. Assim, as viagens reforçam a diferente identidade de Lino e são entendidas como momentos de auto-­‐‑reflecção, de descoberta e de íntimo contacto com a natureza. Como diz Irene Ribeiro: “A procura do jovem Lino é sustentada pelo seu entendimento do “caminhar a pensar” ou Wandern. As longas caminhadas de Lino são isto, a experiência do território para o seu conhecimento profundo e íntimo, o que lhe permite elaborar a ideia de um genuíno “regresso à terra”. Trata-­‐‑se da procura de uma verdade projectual...” 6 Integrado neste contexto de constante procura e viagens, no culminar do trabalho é importante a análise das suas primeiras obras: primeiramente, a participação na casa para o seu amigo Roque Gameiro, a sua proposta para o Pavilhão de Portugal e as “casas marroquinas” – Casa Monsalvat (1901), Casa Silva Gomes (1902), Casa de Santa Maria (1902) e Vila Tânger (1903). Dos casos de estudo apresentados nesta dissertação é importante compreender os estímulos alentejanos e marroquinos com a sua forte utilização das dinâmicas interior-­‐‑exterior e luz/sombra, tão típica das construções mediterrânicas. Mas não são só as viagens e as suas leituras que ajudaram Raul Lino na sua defesa do genuíno “regresso à terra”, a sua estadia do atelier do Arquitecto Haupt (estudioso da arquitetura Renascentista em Portugal) é também um dos factores que vão apoiar a justificação pela sua defesa de um estilo nacional, visível desde cedo nas suas produções arquitectónicas. A estrutra adoptada nesta dissertação passa pela composição de duas partes: na primeira exploro a formação de Raul Lino e na segunda proponho a análise das primeiras obras do chamado "ʺprimeiro período"ʺ. A análise da primeira parte, à qual abordo a formação de Lino, é dividida em quatro capítulos, uma vez que a sua formação é composta por um conjunto de quatro acontecimentos: o estudo do tipo de ensino e as escolas por onde passou dos 10 aos 18 anos de idade; a compreensão da importância que foi o estágio no atelier de Albrecht Haupt, da amizade que daí nasce; as viagens que simbolizam momentos de descoberta e de aprendizagem; e as amizades que trava com amantes da cultura germânica, em Portugal. A segunda parte do trabalho corresponde a uma análise das primeiras obras, obras de carpintaria e design fortemente ligadas à Arte Nova, como o seu quarto de solteiro. As suas primeiras obras como arquitecto são o reflexo não só da sua formação, como também de um trabalho de experimentação In loco que acaba por servir como formação, uma vez que estas obras demonstram uma procura e tentativa de representação do que encontra nas suas viagens. Este estudo aborda então, a considerada “primeira fase” da vida e obra de Raul Lino, marcada por uma formação autodidacta, através dos seus contactos com escolas e personagens incontornáveis da história da arquitectura, literatura, música e outras artes, quer nacionais quer internacionais. Desta forma, considera-­‐‑se essencial compreender este período de formação e autodescoberta, para perceber não só como se tornou nesta figura de estudo da história da arquitectura do século XX, mas também como chegou à defesa de uma arquitectura de carácter nacionalista.
Description: Dissertação de Mestrado Integrado em Arquitectura, apresentada ao Departamento de Arquitectura da F. C. T. da Univ. de Coimbra.
URI: http://hdl.handle.net/10316/24221
Rights: openAccess
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