Please use this identifier to cite or link to this item: http://hdl.handle.net/10316/18183
Title: História e ficção em Paul Ricoeur e Tucídides
Authors: Soares, Martinho Tomé Martins 
Orientador: Fialho, Maria do Céu
Portocarrero, María Luísa
Keywords: Tucídides, ca.465-ca. 495 a. C.; Ricoeur, Paul, 1913-2005
Issue Date: 3-Nov-2011
Citation: SOARES, Martinho Tomé Martins - História e ficção em Paul Ricoeur e Tucídides. Coimbra : [s.n.], 2010
Abstract: São vários os motivos que nos estimulam a desenvolver um trabalho em que os dois protagonistas são um historiador grego do século V a. C. e um dos mais ecléticos e produtivos filósofos da nossa era. Em primeiro lugar, notámos uma semelhança excepcional na forma como o filósofo francês teoriza e o historiador ateniense aplica a ficção na história: os privilégios da imagem retórica, decorrentes da representação literária, em Ricœur, e a vividez imagética, pathetika, em Tucídides, conseguida por meio da ekphrasis e da enargeia, têm como finalidade fazer ver ou pôr sob os olhos dos leitores acontecimentos unicamente únicos que, no entender de Ricœur, clamam por justiça e não podem de modo algum ser esquecidos. Em segundo lugar, ambos trabalham contra uma mentalidade relativista que ameaça fazer da história uma disciplina tão fantasiosa como a ficção literária e procuram formas de conferir credibilidade científica ao ofício do historiador. Assim, ambos foram, no seu tempo e cada um a seu modo, baluartes da verdade contra tendências relativistas de reduzir todo o discurso histórico à retórica ficcional; mas também os dois acabam por reconhecer alguma razoabilidade às teorias que combatem e preservam delas o que pode valorizar a dimensão ética do ofício do historiador. Em terceiro lugar, temos um elo de ligação e de problematização entre Tucídides e Ricœur, que é Aristóteles. Ricœur constrói a sua teoria narrativa, que abrange a história e a ficção, alicerçada na Poética aristotélica; e a obra de Tucídides ajusta-se ao modelo da tríplice mimese aristotélico-ricoeuriano; porém, paradoxalmente, Aristóteles recusa colocar os historiadores ao mesmo nível dos poetas, com base no argumento de que os primeiros imitam o particular e os segundos o universal. Ora, uma das características principais da obra de Tucídides é o seu pendor generalista, universal, e o carácter, a todos os níveis, verosímil e trágico do seu texto. Esta questão evoca uma outra que é central em Ricœur e passível de se reconstituir em Tucídides: a dialéctica compreensão/explicação. Um outro problema que é nuclear em Ricœur e em Tucídides é a crítica dos testemunhos e das testemunhas, dos indícios, das provas, dos documentos, em suma, da memória. A reflexão de Ricœur sobre a memória, o papel das testemunhas e os limites da representação inscrevem-se numa reflexão histórica suscitada por uma guerra contemporânea. Em Tucídides, os mesmos tópicos emergem também sob a influência de uma guerra contemporânea, cujas principais fontes de informação são as memórias dos sobreviventes. Este tema traz ao debate o conceito chave de mimesis e a teoria ricoeuriana da representância, com a qual se pode confrontar a História de Tucídides. Tucídides parece querer configurar o texto com a guerra, como se um pudesse ser o espelho do outro, mas a expressão que utiliza para unir escrita e guerra (“escrever como aconteceu”) é aquela na qual se inspirará Leopold Ranke e na qual se apoiará posteriormente Ricœur para construir o conceito de representância. Por fim, Tucídides é um precursor, o pioneiro de uma disciplina que só amadurecerá enquanto ciência erudita a partir do século XV com Lorenzo Valla e, sobretudo, do séc. XIX com a Escola Metódica. Até aí, o autor da História da guerra do Peloponeso permanece como figura ímpar da historiografia, não emulado pelos seus sucessores e superando em vários pontos o seu antecessor, Heródoto. A prova é que foi adoptado como figura tutelar pelos pais da história científica (mais pelo seu ambicioso programa de trabalho do que propriamente pela sua concretização prática). De facto, em Tucídides reconhece-se uma atitude que é original e fundadora, ainda que meramente incoativa: a instituição de uma epistemologia orientada por critérios de verdade, objectividade, imparcialidade; a valorização das acções humanas (políticas e militares); a indagação semiótica ou indiciária do passado a partir de traços arqueológicos, escritos e orais; a atitude crítica para com as provas e a memória; a construção de uma narrativa histórica explicativa e retro-alinhada por ordem cronológica; a distinção entre história e ficção. Daqui nasce o primeiro exemplar de história contemporânea e político-militar; o que na Antiguidade é o mais exímio conciliador de retórica e história, ciência e arte, objectividade e subjectividade. Vinte e cinco séculos depois encontramos as mesmas preocupações que estão na raiz da historiografia nas amplas e profundas meditações que Ricœur consagra à epistemologia da história em Histoire et vérité (1955), Temps et récit I e III (1983 e 1985), Du texte à l’action: Essais d’herméneutique II (1986), La mémoire, l’histoire, l’oubli, (2000). Todavia, a reflexão de Paul Ricœur tem como pano de fundo não a historiografia antiga (embora esta surja esporadicamente) mas a historiografia moderna. Esta implica outra noção de história e de erudição, outras exigências ao nível das provas, das explicações, dos conceitos, do questionário e até dos factos. Por conseguinte, este confronto entre a epistemologia da história de Ricœur e a História da guerra do Peloponeso de Tucídides é também uma oportunidade para avaliar o desempenho do historiador ateniense, descobrindo-lhe as forças e as fraquezas e o seu lugar na história da história.
There are several reasons underlying the development of a study focused on a Greek historian from the 5th century B.C. and on one of the most eclectic and productive philosophers of our era. First of all, I noticed that the way that the French philosopher theorizes and the Athenian historian applies fiction in history are exceptionally similar: Ricoeur’s privileged rhetorical imagery, derived from literary representation, and Thucydides’s imagetic vividness, pathetika, achieved by means of ekphrasis and enargeia, aim to make the readers see or to lay before their eyes uniquely unique events that, according to Ricoeur, cry for justice and cannot be forgotten. Secondly, both fight a relativist mentality that threatens to turn history into a discipline as fanciful as literary fiction and search for ways to confer scientific credibility to the historian’s craft. Thus it may be said that both were, in each one’s own time and manner, bulwarks of truth against relativist trends to reduce historical discourse to fictional rhetoric; both nonetheless recognize some degree of reasonableness in those theories, retaining all that may enhance the ethical dimension of the historian’s craft. In the third place, Thucydides and Ricoeur share a link of problematisation, which is Aristotle. Ricœur frames his narrative theory within the Aristotelic Poetics, while Thucydides’s work parallels the triple mimesis of Aristotle’s and Ricoeur’s model; however, paradoxically, Aristotle refuses to place historians and poets on the same level, arguing that the former imitate the particular and the latter the universal. One of the main characteristics of Thucydides’s work is its generalist universal tendency and the verisimilar and tragic quality of his text. This matter evokes another one which is central in Ricoeur and may be reconstructed in Thucydides: the dialectic understanding/explanation. Yet another issue at the core of Ricoeur’s and Thucydides’s work is the critique of testimony and eye-witnesses, signs, proof, documents, in sum, of memory. Ricoeur’s reflections on memory, the role of witnesses and the limits of representation are framed within a historical reflection raised by a contemporary war. Thucydides also approaches the same topics influenced by a contemporary war, where the main sources of information are the memories of survivors. This subject brings to the fore the key concept of mimesis and Ricoeur’s theory of representance, which can be confronted with Thucydides’s History. Thucydides apparently wants to give text the configuration of war, as if one could be the mirror of the other, but the expression he uses to conjoin writing and war (to write just as it happened) is the one that will inspire Leopold Ranke and on which Ricoeur will build the concept of representance. Finally, Thucydides is a precursor, founding a subject that will mature into an erudite science only from the 15th century onwards with Lorenzo Valla’s translation and especially from the 19th century onwards within the Methodic School. Until then, the author of the History of the Pelopponesian War remained an unparalleled figure in historiography, one that his successors did not emulate, and that in many aspects surpassed his predecessor, Herodotus. It is no wonder, then, that he was adopted as a patron by the fathers of scientific history (more for his ambitious work programme than its execution). In fact, Thucydides’s perspective is original and groundbreaking, albeit incipient: the institution of an epistemology oriented by criteria of truth, objectivity, impartiality; the emphasis on human actions (political and military); the semiotic or indiciary quest of the past guided by written, oral and archaeological traces; the critical approach to proof/evidence and memory, the construction of an explanative historical narrative retrospectively aligned; the distinction between history and fiction. This originates the first contemporary political-military history, by the most proficient conciliator in Antiquity between rhetoric and history, science and art, objectivity and subjectivity. Twenty-five centuries later the same issues at the root of historiography may be found in Ricoeur’s ample and deep meditations on the epistemology of history in Histoire et vérité (1955), Temps et récit I and III (1983 e 1985), Du texte à l’action: Essais d’herméneutique II (1986), La mémoire, l’histoire, l’oubli, (2000). However, Ricoeur’s reflections are set within modern historiography, not ancient historiography (even if the latter sporadically comes up). Modern historiography entails a different concept of history, different requisites where proof, explanations, concepts, query and even facts are concerned. Therefore the confrontation between Ricoeur’s epistemology of history and Thucydides’s History of the Peloponnesian War is also an opportunity to assess the Athenian historian’s performance, his strengths and weaknesses and his place in the history of history.
Description: Tese de doutoramento em Estudos Clássicos (Poética e Hermenêutica), apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra
URI: http://hdl.handle.net/10316/18183
DOI: 10.14195/978-989-26-1296-6
Rights: openAccess
Appears in Collections:FLUC Secção de Estudos Clássicos - Teses de Doutoramento

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